As Birras…

Um exteriorizar de frustrações…


As birras começam com um motivo, quer seja interno ou externo. Como tal, é muito importante identificar esse motivo a fim de as evitar no futuro. No auge de uma birra parece que o controle desapareceu por completo. Neste estado, não há pensamento, reflexão, comunicação possível, apenas existe uma descarga explosiva de tensão. Para além disso, surgem manifestações físicas: a pele fica avermelhada, o ritmo cardíaco e respiratório aumentam e o corpo da criança agita-se ou entra em convulsões com o choro.
As crianças com idades acima dos 2 anos e meio ou dos 3 anos parecem usar as birras como uma ameaça e uma ferramenta para conseguirem o que querem. Se a criança estiver frustrada porque quer algo que não pode ter, o adulto não tem de lhe dar. Caso o faça, estará a aumentar a possibilidade de que as birras aconteçam. A criança precisa saber que as suas birras não são tão poderosas e tão assustadoras que os pais não consigam fazer-lhes frente, e precisam da certeza que os pais se atrevem a enfrentar a birra, cuidam dela e a protegem dela mesma.
Quando tal acontece, ela tenta primeiro tudo o que sabe. Vai até parecer-lhe que a criança está a dar-lhe um último olhar de aviso antes de se atirar para o chão. Mesmo aí, ela parece estar bem consciente do seu público e abranda de vez em quando para avaliar se este se mantém e grita mais alto, se a mãe ou o pai tentarem intervir. É nesta altura que os pais precisam perceber que o seu poder sobre uma birra está em desistir dela e deixar a criança a aprender a controlar-se: “Estou a ver que estás descontrolado. Sei que consegues controlar-te sozinho, por isso vou afastar-me um pouco até que o faças”. Depois do pior ter passado, a criança começa a descontrair-se e volta pouco a pouco ao seu estado normal. No entanto, ainda está frágil e pode irritar-se facilmente com intromissões no seu esforço para se acalmar. A criança só pode ser confortada mais tarde. Nessa altura, podem conversar e tentarem fazer uma revisão dos acontecimentos, na esperança de os evitar no futuro. Deve-se também elogiar quando a criança conseguiu se controlar, incentivando-a a dominar as birras tão assustadoras para ela própria. Um abraço, um beijinho, ajuda a criança a sentir-se de novo segura.

Quais são as causas das birras?
As birras acontecem, muitas vezes, porque as crianças, já “obrigadas” a encararem um vasto leque de desafios – motores, cognitivos, emocionais, comunicativos e sociais – ainda não dominam as competências necessárias para lidar com todos eles. Para além de uma coordenação limitada, falta de destreza e de palavras, está a falta de algumas capacidades básicas – tolerância à frustração, paciência e a capacidade de se acalmar, entre outras, sem as quais as birras se tornam inevitáveis. Estas capacidades vão sendo adquiridas ao longo do crescimento e podem demorar algum tempo a ser interiorizadas. Mas não se preocupe porque são normais em crianças com menos de 4 ou 5 anos.

Como lidar com as birras?
Se a criança puder ser deixada onde está, em segurança, deixe-a, afastando-se um pouco. Caso ela esteja a usar a birra para lhe transmitir algo, afastar-se é a melhor maneira de lhe mostrar que tem de encontrar uma forma mais adequada de lhe dizer o que lhe vem na cabeça. Antes de se afastar, diga à criança que sabe que ela é capaz de se controlar e que volta para perto dela quando isso acontecer. O melhor é não se envolver na birra dela. Caso, não possa deixá-la onde está, por exemplo, numa loja, pegue-lhe ao colo. Algumas crianças sentem-se confortadas quando lhes pegam no meio de uma birra e vão se acalmando ao sentirem-se agarradas com firmeza. Explique-lhe, calmamente, que vai a segurar até que ela se acalme. Caso fique ainda mais agitada, afaste-a o mais rapidamente possível para um lugar seguro (por exemplo, da loja para o seu carro, onde podem sentar-se calmamente, não a deixe sozinha). Nesse momento, fale com ela o menos possível, exceto para lhe dizer que não vai acontecer nada antes de se acalmar. Se a criança tentar interagir antes de se acalmar, dê-lhe tempo, não se envolva ainda. O “tratamento silencioso” pode deixá-la furiosa, portanto diga-lhe rapidamente que irão conversar quando tiver a certeza de que ela já terminou e consegue se manter calma. Se tentar falar com o seu filho sobre o incidente antes de ele ter se acalmado, para lhe dizer o que pensa ou deixá-lo explicar-se, é provável, que ele se descontrole outra vez. Diga-lhe: “falamos quando fores capaz de o fazer sem ficares agitado.”
Uma maneira da criança controlar as birras passa por seguir o exemplo dos pais em termos de estratégias de auto-controle. As piores birras ou as mais inconvenientes e embaraçosas acontecem quando os pais estão mais tensos, pois a criança sente essa ansiedade e conseqüentemente reage a isso, aumentando e manifestando também a sua própria tensão. As birras não acabam de um momento para o outro, não deixe de desencorajar o seu filho quando a próxima acontecer. Se a sua resposta às crises dele lhe der a impressão de que lhe fazem a vontade se fizer birra, é provável que ele repita, uma e outra vez, mesmo quando já tiver idade para não o fazer. O seu filho precisa perceber que as birras significam que ele se descontrolou e não que a controla a si. Quando a criança sente que tem controle sobre a mãe/pai mais do que devia, pode sentir-se assustada. As crianças precisam saber que os pais dominam as situações, especialmente quando elas não são capazes de o fazer. A serenidade dos pais, o amor que é transmitido à criança, e o estabelecimento de uma relação pais-filho de segurança é o melhor meio para lidar com as birras.

Psicóloga Kellen Ledel

CRP 07/20760

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