VÍNCULO E APRENDIZAGEM

Vínculo E aprendizagem

Liliane Petry Bohlke

Especialista em Educação Infantil

Psicopedagoga Clínica e Institucional

 

A aprendizagem ocorre de todas as formas, o afeto favorece de forma significativa para que o sujeito  aprenda, “para aprender necessitam-se dois personagens, o ensinante e o aprendente e um vínculo que se estabelece entre ambos” (FERNANDEZ, 1990, p.47).

Quando falo em aprendizagem do sujeito, me refiro a todo estímulo que ele recebe desde o nascimento, o carinho, o cuidado, o afeto, o aconchego, todos os estímulos ajudam a constituir o bebê. São essas as emoções que ele vai carregar por toda a vida. Assim, quanto mais vivências permearem o crescimento de uma criança, melhor ela se saíra diante dos desafios da vida.

A dinâmica da aprendizagem ocorre com mais tranquilidade, desde que a forma de aprender o novo esteja garantida, aceita por ela, a partir do erro e da frustração, da alegria e amor recebido. Pois, para aprender precisamos estar conectados com o ensinante. Essa conexão é o vínculo afetivo, importantíssimo para a forma de receber, e entender coisas novas.

E então, o que é vínculo? Segundo Pichon (2007) é uma relação dialética entre mundo interno e mundo externo e entre sujeito e objeto, estabelecendo-se entre estes um diálogo e modificação permanente de um e de outro, através do processo de comunicação e aprendizagem.

O professor querendo ou não interfere positivamente ou negativamente na formação do seu aluno quando se envolve de fato no processo de ensino expondo seu potencial e fragilidades de um aprendiz. Quando transmitimos algo, transportamos mais que palavras, nossa postura, crenças, escolhas também são transmitidas, e isso se chama afetividade.

 

“É preciso ter o cuidado de transmitir nossas mensagens com clareza e pensar nas consequências do que dizemos, sem, contudo, transformarem-se em armas que ferem, humilham ou danificam a autoestima dos outros” (MALDONADO, 1994, p.38).

 

Sabe-se que nas relações, somente a partir do sentimento de segurança e afetividade inicia este vínculo que impulsiona o momento dos questionamentos, aceitação dos erros e a busca na figura do “mestre” pelo conhecimento que constrói a aprendizagem.  Muitas vezes por não terem este vínculo positivo, os alunos ficam acanhados em expor suas dúvidas e fracassos que os fazem mascarar suas angústias resultando frustração, baixa estima e muitas vezes, abandono.

Muitas vezes, o aluno precisa encontrar no professor uma figura positiva em sua aprendizagem, e se espelhar nesta figura quando não consegue encontrar nenhuma referência positiva familiar. Sabe-se que a participação da família na vida e escolar dos filhos está cada dia menor.

“As influências da vida pregressa familiar que interferem na capacidade de aprender a ler, por parte da criança, podem ser de uma variedade imensa. Muitas vezes, uma atitude negativa de uma criança para com a leitura é a consequência do desinteresse dos pais em assuntos intelectuais”( BETTELHEIM, 1984, p. 46).

 

Fernandez (1990, p. 48) nos diz que “o aprender transcorre no seio de um vínculo humano”, ou seja, nosso primeiro vínculo se estabelece com nossos pais, no seio familiar e depois, com o crescimento e entrada na vida escolar, é transferido para a figura do professor.

Para Pichon (2007, p. 31) “o vínculo é sempre um vínculo social, mesmo sendo com uma só pessoa” e é através da relação com essa pessoa que se dá o vínculo e se repete a história em um tempo e espaço. Para ele, o vínculo primeiro é externo, depois interno e por último interno novamente formando assim um ciclo. Seria assim: o que o sujeito tem dentro de si, dá para o outro, mas nem por isso o seu interno torna-se igual, aquilo que o outro recebe modifica-se durante a troca.

Os alunos presentes em nossas escolas muitas vezes não querem que seus professores saibam o que move dentro de si de forma inconsciente. O papel do professor, além de mediador do conhecimento, é também de ocupar seu lugar e conduzir o aluno em direção à superação escondida dentro dele. Kupfer (1997, p.93) diz que “esta é uma tarefa incômoda, visto que ali seu sentido enquanto pessoa é “esvaziado” para dar lugar a um outro que ele desconhece”. O professor também é marcado pelo seu desejo inconsciente que o impulsiona a sua função de mestre. O desejo do professor de estar em sala de aula é justificado pela sua presença, porém a transferência acontecerá se ele realmente estiver ali.

O vínculo criado em sala de aula se reflete na preocupação com os alunos, reconhecendo-os como seres autônomos, mostrando exigências coerentes e uma atitude de confiança e respeito à sabedoria e à condição de aprendiz de cada um. O vínculo afetivo contribuiu para reparar possíveis fraturas no processo de aquisição do conhecimento de cada um dá espaço para que haja um aprendizado que transforma seu interior e projeta suas atitudes e mudanças refletindo no exterior de suas relações.

Fernandez (1990, p.52) defende que “não aprendemos de qualquer um, aprendemos daquele que outorgamos confiança e direito de ensinar”. Não há transferência sem vínculo. Não seria possível dividir, aprender, somar ideias com quem não criamos laços, sejam eles positivos ou negativos.

A ideia de transferência positiva mostra que, todos aqueles que apostam na criança, conseguem observar o crescimento deste.      O professor deve saber que é um interlocutor privilegiado e que o vínculo é um facilitador na transferência e na aprendizagem.

Para finalizar, Lacan (1992, p.71) nos diz que “…alguma coisa que se assemelha ao amor ,é assim que se pode, numa primeira aproximação,definir a transferência”.

 

 

BIBLIOGRAFIA

BECKER, F. Da ação à operação: o caminho da aprendizagem em J.piaget e Paulo Freire. Rio de Janeiro: DPIA Editora Palmarinca, 1997

BETTELHEIM, B.; ZELAN, K. Psicanálise da alfabetização: um estudo psicanalítico do ato de ler e aprender. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.

FERNANDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência. In: Obras complementares. Rio de Janeiro: Delta, 1992.

__________. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud.  Edição Standard. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LACAN, J. O Seminário Livro 8: Transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

LAPLANCHE, J. & Pontalis, J. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

PICHON-RIVIÈRE, Enrique. Teoria do vínculo. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

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